Amor(dores)
Sorríamos muito ao cair da noite, em brindes, taças de vinho tinto, retiravam nossas vergonhas e apresentavam assim, os nossos sorrisos. Penélope parecia ter saído de um desses encontros fortuitos que a vida lhe dá quando menos se espera. Lembro como ontem quando meus dedos cruzaram com suas fotos. Sabe como é, aplicativos e dedos gordos acabam com a vida das pessoas.
Era madrugada de uma noite turbulenta em meio a um plantão desgastante de finados, data dolorosa, lembro de uma paciente velhinha, velhinha que se chamava Penélope. Era ela era miúda, cabelos brancos e mãos enrugadas que mais pareciam um senhora bem vivida, olhei a ficha e tinha 95 anos, quem pudera, tantos anos. Ela entrou no hospital, sentindo dores repentinas, falta de ar, coloquei-a na UTI, senti seu coração mais fraco e ela queria dizer algo, resisti, mas deixei:
- Sabe meu filho, agora é hora de partir... Tô cansada desse mundo velho que só me enfraquece.
- Preciso salvar sua vida, ela é importante.
A velha meu olhou com olhos arregalados, fitou-me e com voz serena e agridoce me questionou:
- Importante para você, para o hospital e para minha família?
- Ora, para sua família. A senhora é querida, as pessoas a trouxeram aqui.
A senhora deu um riso irônico e ao balbuciar algo, seus olhos fecharam e seu coração, enfim, parou. Senti seu último suspiro, minha força foi em vão ali.
- Importante para você, para o hospital e para minha família?
- Ora, para sua família. A senhora é querida, as pessoas a trouxeram aqui.
A senhora deu um riso irônico e ao balbuciar algo, seus olhos fecharam e seu coração, enfim, parou. Senti seu último suspiro, minha força foi em vão ali.
Penélope não gostava da ideia de ficar velha e ter cabelos brancos
- Farei plástica e pintarei meus cabelos sempre que possível.
Comia pouco e bebia uma taça de vinho para o coração poder viver mais, disse não querer ter filhos e viver viajando. Penélope trabalhava como corretora. Apresentou nossa casa, uma mansão, as relações que deveria ter com as pessoas certas, quanto gastar e a ser exigente para com serviços. Certificou-se de que merecia louros e gratificações e não sofrer pela morte.
Penélope me acordava e me fazia dormir, mesmo não fazendo amor ou qualquer carícia. Me sentia culpado por não dar a atenção que ela merecia, seus cabelos loiros, seus olhos verdes. Parecia desenhada e pronta para ser eternamente minha.
Um dia, Penélope se foi, alguns dias em pânico, sofrendo, bebendo e em angústia, plantões solitários sem sua voz, chamadas. Até que um dia meu telefone toca
Um dia, Penélope se foi, alguns dias em pânico, sofrendo, bebendo e em angústia, plantões solitários sem sua voz, chamadas. Até que um dia meu telefone toca
- Oi Carlos, está bem?
- Estou sim, Penélope?
- Não. Aqui é a amiga dela.
- Então, o que houve com ela? Morreu?
- Ora Carlos, você sabe que ela não morreu. Ela nunca nem existiu.
Meus olhos principiavam em choro, não tinha forças para responder e ouvi mais da voz
- Ela saiu do programa, mas estou aqui para lhe servir. Tudo bem?
- Ainda estou me recuperando, desculpe.
- Então como quer me chamar?
- Penélope.
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