Sobre a Venezuela

Dia 03 de janeiro de 2026, na madrugada, o governo dos EUA toma Nicolas Maduro como seu mais novo hóspede na masmorra. Manifestações de apoio e críticas à invasão e sequestro tomaram a opinião pública. Se alguns muitos comemoravam, outros evocavam o espírito latino como resposta as atrocidades históricas do Tio Sam. Talvez, para alguns, o ocorrido dia 03 de janeiro seja somente um país imperialista malvado frente a um país indefeso pelo embargo. Porém, se ocultam as lutas de classe e as relações que levam a Venezuela a ter uma lupa internamente e externamente.

Não é bem assim…

É preciso olhar com visão crítica, a dita revolução bolivariana em nada tem a ver com o marxismo ou qualquer tendência libertária. Marx já criticava Simon Bolívar e o chamava um pretenso ditador1. Se já no século XIX, Marx já via este processo, não seria com Chavez e Maduro que estes se tornariam revolucionários e críticos ao modo de produção capitalista, aliás, a defesa promovida pelo petróleo negava totalmente essa ideia. Podemos dizer que o bolivarianismo e sua vertente chavista são modelos nacionalistas que buscavam a reorganização capitalista internamente na Venezuela. Para tanto, promoveriam essa ação do capital com força do Estado e atuando de maneira em atender aos interesses capitalistas pretendidos por este. Trata-se muito mais de um capitalismo de Estado.

Em um primeiro momento, com a necessidade do ouro negro em conjunto às crises e guerras no capital – World trade Center, Guerra do Afeganistão e Guerra no Iraque –, a necessidade fez o preço disparar e o insumo fez com a Venezuela ficasse com lucros imensos. Nisto, a Venezuela estava amparada pela dinâmica imperialista, mesmo com as críticas de Chavez a Bush em sua “guerra ao terror”. Nisto, as guerras beneficiaram a Venezuela e suas exportações 2 aos EUA sem que isso incomodasse ou gerasse comoção crítica por parte do “socialismo”. Aliás, a venda de petróleo garantiu aos EUA enfrentar a guerra sem sofrer crises internas intensivas para com o consumo à sua população.

A lutas internas

Se por um lado os interesses chavistas eram de um “socialismo no século XXI”, por outro as ações eram de sepultar ou alinhar estes poderes para perto do Estado. Os conselhos comuniais foram criados por lei em 2006. Espaços criados e organizados nas periferias e que foram direcionados por via constitucional em 2002 Lei dos Conselhos Locais de Planificação Pública, e depois em 2006 com o nome de Lei dos Conselhos Comunais. Segundo apresentado em um artigo,


[…] instâncias de participação, articulação e integração entre os cidadãos, cidadãs e as diversas organizações comunitárias, movimentos sociais e populares, que permitem ao povo organizado exercer o governo comunitário e a gestão direta das políticas públicas e projetos orientados a responder às necessidades, potencialidades e aspirações das comunidades, na construção do novo modelo de sociedade socialista 14 de igualdade, equidade e justiça social (Venezuela, 2009). 3

A aparente lei demonstra que as ações populares serão superiores às instâncias e órgãos estatais o que gera um aparente avanço, contudo, a produção se dá por àqueles que foram associados a tais comunas. Em suma, trabalhadores que não forem associados se perdem no viés institucional. Vamos ver os apontamentos,

Na Lei Orgânica das Comunas ficou estabelecido que estas devem ter como finalidade: a) desenvolver e consolidar o Estado Comunal como expressão do Poder Popular e base para a construção de uma sociedade socialista3 ; b) conformar o autogoverno para o exercício direto de funções na elaboração, execução e controle da gestão pública; c) promover a articulação e integração com outras Comunas; d) impulsionar o desenvolvimento e consolidação da propriedade social; entre outros. (R. B. de VENEZUELA, 2010b. - Artigo 7º – grifos de Rodrigues). 4



Primeiro que autogoverno não rima com institucionalidade. A construção dos meios para superação capitalista devem vir da experiência e tentativa dos trabalhadores e longe de qualquer ação que venha de cima para baixo. Segundo que isto está longe autogoverno, pois foi delimitado e decidido pelo aparato estatal.

Em relação à propriedade social, o termo impulsionar o desenvolvimento e consolidação ocultam outros fatores. A produção é do trabalhador, ele quem promove a ação a que deve ser pautada a sociedade. Dentro disso, ele concebe o tempo para si e a execução do trabalho que garanta a manutenção das condições de funcionamento dessa sociedade. O desenvolvimento é interesse do capital que necessita inovar, expandir ou desenvolver ao máximo as relações existentes para a manutenção máxima e de tempo usufruto destas. Por exemplo, os conselhos não decidiram em seus autogovernos a jornada de trabalho ao qual desejavam. Nem como gostariam de exercer sua forma de produção ou troca de produção com outras comunas ou partes do mundo. Isto tudo ficou a cargo do aparato estatal com manobras políticas por parte de Chavez e Maduro.

Por outro lado, as críticas ao chavismo por parte de anarquistas, foi duramente deixada de lado ou reprimida. A deformação promovida pelo chavismo e sua atuação por parte dos partidos, impediu uma ação que fosse dialogada ou discutida.5 Percebe-se que a ausência crítica e a autonomia, impendem a verdadeira ação revolucionária que foi reprimida em várias revoltas ações ocorridas. Para estes não houve/há dor ou alegria, a violência e a miséria foram o toque de caixa existente antes e agora.

Considerações Finais e Alternativa

O ensaio é curto e não conseguiria englobar toda a construção de anos e anos da ação nacional promovida por Chavez e Maduro. O pesadelo do século XXI na Venezuela esteve longe do dito socialismo de Marx. Diríamos que é um aprofundamento do capitalismo de Estado e sua herança soviética. Ali vimos que o apoio na reforço repressivo e de guerra ganhou apoio e mãos de ferro aos interesses. A sensibilidade e o apontamento crítico foi trocado pelo pragmatismo político e necessidades dentro do capital. A Venezuela não abandonou sua posição e nem seus interesses, prosseguiu sendo um país e aprofundou ainda mais suas relações econômicas. As diferenças em 2026 e em 1999 são claras. A necessidade do petróleo venezuelano em meio a uma crise desta mercadoria em meio as guerras imperialistas trouxe margem para ações e manobras de Chávez. Com a morte de Chávez e a crise que foi se alastrando com Maduro, a margem foi ficando mínima para os interesses conciliatórios internos e demandantes externos. Interessante perceber que os conselhos comunais (longe de ser os conselhos da comuna de Paris) nada mais foram como manobras de inibir a autonomia crítica por parte dos movimentos sociais que foram sendo constituídos nos anos 2000 no país citado.

A luta de classes não deixou de existir na Venezuela, ela foi mascarada e aprofunda pela burocracia e burguesia daquele país. Frente a fome e a miséria, viu uma migração intensa em seus países vizinhos e toda uma convulsão interna fomentada pelas alas burguesas alinhadas ao capital estrangeiro. O sequestro do ditador deve trazer alguns olhares. Num primeiro ponto, o imperialismo estadunidense pretende atacar e agir para atender seus interesses e mostrar que ainda é a grande potencial mundial. Num segundo ponto, a ditadura ocorrente naquele país não pode ser ignorada e tampouco colocada como processo, pois se trouxe miséria, violência, fome e toda uma série de repressões e dores, já se dá por fracassada em qualquer âmbito crítico no papel revolucionário. Logo, o papel de saída é a internacionalização da luta de classes e a radicalização necessária. Tratar de olharmos que todos tais quais os trabalhadores. Podemos ser meros peões no tabuleiro capitalista que ignora qualquer humanismo e só apresenta o amor ao capital e a expansão produtiva. Como a burguesia depende da formação de cada país, ela não atuará sozinha e cabe a nós, trabalhadores, buscarmos ações universais e de união para tal. Guerras e ações assim sempre ocorreram no capital, aos trabalhadores resta a luta e a consciência concreta, algo que anda em falta como alternativa revolucionária.

1https://www.marxists.org/portugues/marx/1858/mes/bolivar.htm. Há um livro acerca chamado “Simón Bolívar por Karl Marx” da editadora Martins Fontes. O livro possui um prefácio tão defensor da ideia do bolivarismo que me espanta achar que alguém saia ali não querendo tacar pedras no caixão de Marx.

2https://wits.worldbank.org/CountryProfile/en/Country/VEN/Year/2006/Summarytext#:~:text=Venezuela%20exports%20to%20United%20States,partner%20share%20of%203.12%20percent.

3https://share.google/AqIVzq1Qv58QaZbGS

4https://share.google/CPagSaDwrEonhqoYI

5https://estrategiaeanalise.com.br/?p=1006


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