Chacal
No alto do monte, em meio as pradarias e cordilheiras num clima árido e sórdido o chacal observa a luz que habita o dia. Os olhos julgam a paisagem e este adere um tom seco e irônico ao clima e aos outros animais:
- Olhe estas zebras... Sabem que irão morrer e prosseguem. Parecem tolas, mal sabem elas que cobras, leões e tantos outros esperam para lhe atacar e tirar toda tua vida.
Chacal que era mercenário, se preparava para mais galhofas para com os outros animais:
- Meu deus, como deve ser horrível viver como hiena. Devora os restos e ainda se acha dona de algo. Como pode algo tão frágil e imprestável. Se fosse o leão tiraria a todas.
Neste momento a coruja escuta e diz:
- Mas se tirar as hienas quem limpará as presas colhidas. É preciso um subalterno, alguém que deseja as migalhas para assim viver na ignorância e exigir um pedaço de carne digna.
O chacal em tom jocoso apronta um contra argumento:
- Existem os urubus, oras! Sempre estão a colher a carniça, a fome faz parte da sua rotina. Limpam e se alimentam de quaisquer coisas que venham se apresentar. E o melhor nunca reclamam ou comem do trabalho alheio, esperam o fim, se aproximam e devoram.
A coruja ouve pacientemente e responde num argumento engenhoso digno de sua sabedoria e paciência:
- Os urubus possuem uma fome a de que tudo lhes alimentam. Para eles não há leis, regras, o que importa é a sobrevivência e irão fazer disto sua única razão. Voam com seus bicos e garras no dejeto exposto ao sol, perdido em sua imensidão e ao azar. Você parece não entender a diferença.
- E há diferença, nobre coruja?
- Claro, as hienas lutam pelo pedaço de carne enquanto os urubus pelas vísceras. Os urubus atacam sozinhos para que não se possua mais ninguém a comer já as hienas em grupos para que todos possam partilhar ao menos o pouco que possui.
O chacal sorri amarelo e pensa em como sua posição era favorável com grande fartura de alimentos.
- Sorte que não sabem se organizar, Coruja... Imagine as hienas organizadas? Iria perder meu poder e minhas vantagens. Nem quero pensar nisso,
- Colega Chacal, nem eu. Por isso tenho asas e sempre que dá fico a voar e desiludir as hienas. Elas comentam baixinho de se unirem e quererem mais carne, mas as amedronto, tiro da cabeça dela estas ideias, mostro hierarquias e processos históricos de que sempre foi e será assim. Não quero perder minha posição com tanta influência e frutas à vontade.
O chacal ri, em mais um fim de tarde. Sabe que este não será hoje e quem sabe não tão em breve, mas ainda fica uma dúvida:
- E se nem a coruja for o bastante para prosseguir dissuadindo as hienas? E se os urubus se juntarem e tomarem consciência?
Silêncio! Eles não podem ouvir meus pensamentos.
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